O País dos Homens-Moleques: O Que a Eliminação para a Noruega Diz Sobre Nós.

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Dizem que o futebol é o espelho de uma nação, a coisa mais importante dentre as menos importantes. Mas, para o brasileiro médio, a eliminação da Seleção Brasileira para a Noruega, no último dia 05/07, pelas oitavas de final da Copa do Mundo, mostrou um reflexo nítido do nosso mais profundo ridículo. O 2 a 1 para os nórdicos doeu, mas a nossa incapacidade crônica de lidar com a frustração doeu ainda mais.

Foram 36 anos sem cair nas oitavas de final de um Mundial, desde a edição de 1990, mas a maturidade do torcedor parece ter regredido aos mesmos níveis daquela época. Ou pior: estacionou na infância.

As cenas após o apito final foram literalmente patéticas. Adultos, tomados por uma fúria infantil, usaram enxadas para arrancar as bandeirolas verdes e amarelas que eles mesmos haviam pendurado com orgulho dias antes. Camisas oficiais foram rasgadas e queimadas; televisões de última geração foram esmagadas na calçada ou no quintal de casa. E o detalhe tragicômico: o sujeito ainda vai passar meses pagando as prestações no carnê.

O pior é ver que essa pedagogia da fúria está sendo transmitida por herança. Crianças e adolescentes, imitando o chilique dos mais velhos, foram filmados queimando álbuns de figurinhas. E o que fazem os pais? Em vez de educar, de ensinar que a vitória e a derrota fazem parte da vida, eles pegam o celular e filmam, orgulhosos, a própria falência educacional, pra ganhar likes na internet. Estamos criando uma geração de mimados que não sabe ser contrariado ou lidar com esta situação. O brasileiro parece ter desaprendido essa regra básica da existência. Aí a criança vai crescer sem saber ouvir um ‘não’, sem querer destruir o mundo ao seu redor. É preocupante demais.

Esse surto de descontrole emocional, que beira uma crise grave de saúde mental coletiva, acende um alerta que vai muito além das quatro linhas. Homens agindo feito moleques mimados dentro de casa são um perigo público. Se hoje o sujeito desconta a raiva estraçalhando a televisão, amanhã o alvo pode ser a namorada/esposa, a filha ou até a própria mãe. Isso acende um sinal vermelho desesperador para as mulheres. Em um contexto doméstico, esse nível de agressividade por causa de futebol não é apenas ‘paixão’; é uma red flag do tamanho de um estádio. É a nossa triste e duríssima realidade de uma saúde mental em frangalhos.

Antes do jogo, o roteiro foi o mesmo de sempre: o brasileiro e sua mania arrogante de subestimar o adversário. Em vez de debater tática, técnica ou o futebol físico dos rivais, o nível intelectual preferido foi o deboche de quinta categoria. A soberba nacional operava em sua potência máxima.

Zoaram o atacante Erling Haaland, reduzindo seu nome a piadas de duplo sentido. Pegaram a tradicional ‘remada’ da torcida norueguesa (um símbolo histórico da união, sobrevivência, superação e sincronia de um povo viking que remava junto na canoa para desbravar o mundo), e a resposta do ‘intelectual’ brasileiro foi fazer o ‘Créu’. Trocamos a reverência cultural pela obscenidade de um funk de baixo nível. O brasileiro médio literalmente tem essa síndrome de recusa sistemática em tentar entender a história, prefere o deboche raso ao debate técnico e tático, prefere rebaixar o adversário a nossa própria vulgaridade para tentar se sentir superior. Fomos engolidos em campo porque preferimos rir do que estudar.

O nível intelectual desceu ao subsolo. No fim, quem acabou remando de volta para casa, em silêncio, fomos nós.

O voo de volta da Seleção desembarcou no Galeão em um silêncio sepulcral. A bordo, apenas dirigentes e um único jogador: o zagueiro Danilo, do Flamengo, que teve o azar de ser improvisado na lateral-direita pelo italiano Carlo Ancelotti. O atleta cruzou o saguão do aeroporto de cabeça baixa, recusando-se a dar entrevistas. Um silêncio que contrastava com o barulho ensurdecedor da nossa vergonha nacional.

O futebol, no Brasil, deixou de ser esporte para virar um sintoma grave de crise na saúde mental coletiva. Se não conseguimos digerir 90 minutos de bola rolando sem queimar o patrimônio e assustar nossas famílias, o problema nunca foi o oponente. O problema real está espelhado na nossa própria cara: o brasileiro perdeu completamente a cabeça, a educação e a vergonha.

Fonte : acervo próprio.

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Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.

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