Caetité: Distorção, Poesia e Resistência – O alto sertão que pulsa no ritmo do rock.

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No imaginário popular, a Bahia é frequentemente resumida a um único ritmo. Mas quem desembarca em Caetité descobre um Alto Sertão que ecoa muito mais do que a tradição: aqui, o rock encontrou um solo fértil, vibrante e, acima de tudo, resistente. Mais do que um gênero musical, o rock em nossa cidade consolidou-se como um estilo de vida que transcende o tempo, unindo gerações em torno de uma paixão comum. É uma comunidade onde cada balanço de cabeça reafirma um profundo sentido de pertencimento.

A cidade consolidou-se como um verdadeiro polo alternativo. Desde 2009, o nosso icônico Anfiteatro da Praça da Catedral, conhecido popularmente como ‘Redondo’, tornou-se o coração da resistência das nossas bandas locais. Por meio de editais de cultura, o espaço abre alas para que o som autoral e os grupos locais encontrem seu público na tradicional Festa de Sant’Ana (através do Santana Rock).

É uma ocupação artística que, desde 2012, ganha um reforço de peso no palco principal da Festa de Sant’Ana, recebendo nomes nacionais como Nando Reis, Humberto Gessinger, Frejat, Titãs, Biquíni, Detonautas, Marcelo Falcão e IRA!. E neste ano de 2026, teremos a Banda Rock Beats.

Biquíni em Caetité (2022)

Detonautas em Caetité (2023)

Marcelo Falcão (ex-O Rappa) em Caetité (2024)
Banda IRA! em Caetité (2025)

Há uma diferença fundamental entre estar cheio e estar lotado. O público do rock em Caetité preenche a praça com dignidade, ocupando o espaço com respeito à infraestrutura e ao próximo. Enquanto outras vertentes musicais, infelizmente, são marcadas por episódios de desordem, bebedeira desenfreada e ocorrências policiais, o dia do rock na Festa de Sant’Ana é um verdadeiro oásis de tranquilidade.

É ali que vemos famílias inteiras (de crianças a jovens, adultos e idosos), celebrando a música em harmonia. As famosas rodinhas (popularmente conhecidas como mosh) são, na prática, o extravasar de uma energia pura, uma catarse coletiva intensa e de absoluta paz. Sem registros de ocorrências graves, o público do rock dá, ano após ano, uma verdadeira aula de como se deve curtir uma festa.

A identidade musical da nossa terra se fortalece na mistura entre apresentações cover de altíssimo nível e uma produção autoral refinada. Conheça as bandas que fazem o som acontecer em 2026:

– Quebra Copos: A pioneira incontestável. São 36 anos de estrada (desde 1990) trazendo o melhor do rock progressivo, psicodélico e clássico, inspirada em lendas como Cream, Steppenwolf, The Doors, Deep Purple, Rolling Stones, Pink Floyd e Jimi Hendrix.

– Natural Hate: Na estrada desde 2011, a gigante do thrash metal carrega um repertório 100% autoral e o marco de uma turnê internacional pela América do Sul em 2019. Traz na bagagem os álbuns Delivery Service Of Chaos (2012), Welcome To Underground (2017) e o EP Seguir Em Frente e Resistir (2024).

– Projeto Secreto: Famosa pelo carisma do vocalista e por suas letras lúdicas e poéticas sobre o cotidiano da cidade. No setlist, destacam-se pérolas autorais como ‘Bota o Pé Na Trilha’, ‘Peixe das Nuvens’, ‘Borboletando’, ‘Sara Lu’, ‘O Aniversário de Quincas Berro D’Água’ e ‘Blues do Miguilim’.

– Yellow Cake: Desde 2002 na estrada, a banda traz o melhor do Rock Clássico Internacional (Hard Rock), o som de arena do Guns N’ Roses, Scorpions, Bon Jovi, Aerosmith e AC/DC. Neste ano de 2026, eles se apresentaram no palco principal da Festa de Sant’Ana.

– Cárla: A nossa musa, nossa princesinha, nossa gata do rock caetiteense. Transita entre o pop rock e o indie, trazendo um manifesto, um grande tributo as suas referências (Pitty, Rita Lee, Paula Toller, Cássia Eller, Virginie Boutaud, Kate Bush, Blondie, Cyndi Lauper, Marina Lima, Marina Sena), uma grande aula de empoderamento feminino, além de encantar e emocionar a todos com suas autorais : ‘Ausência’, ‘Viajantes Estelares’, ‘Calma’ e ‘Livre Pra Amar’.

– Fire System: Transita com naturalidade pelo rock progressivo, psicodélico, jovem guarda e pop rock nacional, bebendo de fontes como Pink Floyd, Jimi Hendrix, The Beatles, Dire Straits, Chris Isaak, Eric Clapton, Metallica, Erasmo Carlos, Barão Vermelho (Frejat e Cazuza), Raul Seixas, Legião Urbana e Cássia Eller. Recentemente (em 07/06), lançaram a emocionante canção autoral ‘Pra Sempre Nos Meus Braços’.

– Sagarana: Desde 2011, trazendo o melhor do pop rock nacional dos anos 80 e 90, resgatando clássicos de Engenheiros do Hawaii, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso, RPM, Titãs, Nenhum de Nós, Barão Vermelho, Lobão e Skank.

– Sumermo: Mistura visceral de rock, reggae e post-punk, marcada por apresentações de alta energia. Trazem influências de Charlie Brown JR., O Rappa, Nação Zumbi, Scambo, O Círculo, Cidade Negra e Edson Gomes, além das potentes autorais ‘Prazer’, ‘Saia Pra Ver’, ‘Descompassado’ e ‘É Preciso Extravasar’, destaques do EP Resiliente (2019).

– Diretriz: Clássicos do pop rock nacional (anos 80, 90 e 2000). O repertório passeia por Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Raul Seixas, Detonautas, Capital Inicial, Legião Urbana, Skank, Charlie Brown JR., O Rappa, Scambo e Vivendo do Ócio, além da clássica ‘Pegasus Fantasy’ (Edu Falaschi), tema de Cavaleiros do Zodíaco. Lançaram recente o single autoral ‘Tento Te Dizer’, no dia 12/06.

– Esporão de Galo: Heavy metal tradicional e thrash clássico na veia (Metallica, Motörhead, Black Sabbath e Sepultura). Lançaram recentemente, no dia 11/06, a o single autoral ‘Out Of Tune’.

– Lion Soul: Entrando em uma nova e madura fase em 2026 com a chegada de Péricles Vinícius no baixo. O som, que antes se concentrava no reggae, agora abraça com força o pop rock e a MPB (reunindo influências de Barão Vermelho, O Rappa, Charlie Brown JR., Raul Seixas, Adão Negro, Caetano Veloso e Djavan), além das autorais ‘Siga Sem Pressão’ (remodelada para o pop rock), ‘Gole de Rum’ (blues/rock), ‘Fogo’ e ‘Amanhecer’ (ambas em reggae).

– James Go: Estreante neste ano de 2026, a banda traz o peso e a nostalgia do pop rock nacional dos anos 90 e 2000, tocando Detonautas, Raimundos, Tihuana, Charlie Brown JR., CPM22, Los Hermanos.

– Diskórdiah: Trazem o peso do Nu Metal e do Hardcore dos anos 90 e 2000 (Linkin Park, Limp Bizkit, Deftones, System Of a Down, Drowming Pool e Slipknot), marcando presença nos palcos desde sua estreia em 2025.

– Malmitex: Desde 2005 quebrando barreiras ao misturar pop rock nacional, manguebeat, MPB, nu metal e thrash metal (O Rappa, Chico Science e Nação Zumbi, Titãs, Zeca Baleiro, Sepultura e System Of a Down).

– Banda 1: Um verdadeiro almanaque da música brasileira e mundial executado com extrema sensibilidade. Um som de resistência, eclético e refinado, feito para ouvir com atenção e levantar-se para dançar, passando por Milton Nascimento, Guilherme Arantes, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Bob Marley, Roberto Carlos, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, 14 Bis, Legião Urbana e Raul Seixas.

A história também é feita de despedidas. Na memória afetiva da nossa cena, guardamos com carinho bandas que deixaram sua marca definitiva na construção dessa identidade : Kaballah (2007-2020), Habanna Roots (2018-2024), The Jam Peppers – Cover Red Hot Chilli Peppers (2023-2025), Scorva (2024-2025) e 90’s Vibes (2024-2025).

A força do rock em Caetité vai muito além do calendário oficial do município. A cena é autossustentável, movida pela paixão dos músicos e pelo apoio fundamental do comércio local através de eventos independentes de grande porte:

– Anísio Rock Festival: organizado e idealizado pela banda Sagarana no pátio externo da histórica Casa Anísio Teixeira. Em 2026, o festival celebrou sua 8ª edição em um formato inédito de dois dias, consolidando-se como o evento mais aguardado do mês de maio.

– Jan’s Rock: Parceria da banda Projeto Secreto com a hamburgueria Jan’s Burguer, movimentando o Parque das Árvores na semana do Dia Mundial do Rock (julho).

– Fire Rock e Halloween Fire Night: Projetos capitaneados pela banda Fire System. O Fire Rock realizou sua 2ª edição em abril de 2026, no Clube da AABB. Já o Halloween Fire Night ruma para sua 2ª edição em outubro de 2026, prometendo agitar novamente os palcos da AABB.

Nem tudo são facilidades na estrada do underground. Relembramos com respeito eventos pioneiros que foram extintos, como o lendário Metal Open Air (que resistiu de 2013 a 2016 e findou-se por falta de aporte financeiro); o Cultura Rock, interrompido em 2022 devido às chuvas de fim de ano e burocracias públicas; e as edições intimistas do Casa Groove (na Casa do Parque) em 2023 e 2024.

Quando a temporada de eventos locais se acalma, nossas bandas levam o nome de Caetité para além das divisas. Elas conquistam os palcos de cidades vizinhas como Guanambi, Pindaí, Correntina e Bom Jesus da Lapa, descem até a capital, Salvador, e chegam a outros estados, com shows marcantes em Minas Gerais (Espinosa, Montes Claros e Belo Horizonte).

O rock em Caetité é sobre celebrar quem somos agora. É sobre a integração entre bandas, produtores e o público. É ver a música pulsar nas veias e entender que, como diz o balanço de cabeça lá no ‘Redondo’, todos nós pertencemos a este lugar. O rock não é apenas música; é a nossa forma de dizer que o Alto Sertão também é palco de vanguarda, atitude, arte, coragem, emoção no volume máximo e, principalmente, cultura.

É importante ressaltarmos o esforço de divulgação do underground local, através da página ctecityrockandroots121, gerida por João Victor Carvalho, jornalista e influencer cultural, em que ele vai muito além de divulgar as agendas, também documenta as histórias de todas as bandas que compõem a nossa identidade, trazendo a visibilidade necessária.

Músicos e público se abraçaram e reconheceram que, para o rock sobreviver e prosperar no Alto Sertão, é preciso contar nossas próprias histórias. Caetité prova que é possível, sim, ocupar o espaço público com cultura alternativa de alta qualidade.

Fonte : acervo próprio.

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Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.

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