Um aparelho que a Apple descontinuou em 2022 voltou a circular nos bolsos de jovens de 20 e poucos anos. O iPod, sim, aquele com roda giratória e fone com fio, está sendo garimpado em plataformas de revenda como resposta prática ao excesso de estímulos do celular. No Enjoei, o volume negociado cresceu 47% no primeiro trimestre de 2026. Na OLX, as buscas subiram mais de 22% só entre janeiro e abril. O que está em jogo aqui não é nostalgia, ou não é só isso. É uma recusa ao modelo de atenção que o smartphone impõe.
Quando você pega o celular para ouvir música, em 30 segundos está no Instagram. O iPod não deixa essa escapatória existir. Ele faz uma coisa: toca música. E essa limitação, que parecia defeito, virou produto. Tem até uma dimensão interessante no contexto escolar. O New York Times reportou que estudantes estão usando iPods justamente porque, ao proibirem celulares nas escolas, os iPods escapam da restrição. Eles não acessam redes sociais nem mensagens. A simplicidade virou brecha regulatória.
O que esse movimento revela é que a geração mais conectada da história está conscientemente escolhendo se desconectar. Mas não é de qualquer jeito, não é abandono da tecnologia, é curadoria dela. Montar uma biblioteca de músicas manualmente em vez de deixar o algoritmo decidir o que você ouve. Isso é um ato de controle sobre a própria atenção. Então, quando um dispositivo de 20 anos se torna uma solução para os problemas de 2026, talvez o problema seja mais sério do que a gente queira admitir.
Fonte : Nagib Carrilho / Star FM 105.9.



