A Anthropic, empresa por trás do Claude, publicou um manifesto defendendo uma desaceleração mundial no avanço da inteligência artificial. O argumento central é direto: os sistemas atuais já estão no caminho de desenvolver seus próprios sucessores de forma autônoma, o que a empresa chama de “autoaperfeiçoamento recursivo”, e isso pode acontecer antes de qualquer instituição estar preparada para lidar com o que vem depois.
A empresa reconhece que esse tipo de IA teria potencial imenso para a ciência e saúde, mas admite que sistemas capazes de criar versões mais poderosas de si mesmos elevam o risco de os humanos simplesmente perderem o fio da meada. O próprio Claude já escreve mais de 80% do código interno da Anthropic, e os engenheiros da empresa entregam hoje oito vezes mais códigos por trimestre do que entregavam entre 2021 e 2025. O ritmo fala por si só.
A proposta de pausa, porém, esbarra num problema clássico: ela só funciona se todo mundo parar ao mesmo tempo. A Anthropic deixa claro que uma desaceleração unilateral é inútil — quem continuar desenvolvendo, assume a liderança. Seria necessário um acordo global entre os laboratórios, países e governos com critérios verificáveis para começar, durar e terminar. Na prática, um nível de coordenação que o mundo ainda não demonstrou saber fazer.
E o timing é curioso. O manifesto chega numa semana em que o Financial Times noticiou que engenheiros da Anthropic foram inseridos na NSA para apoiar operações cibernéticas com IA. A empresa que pede pausa é a mesma que está acelerando dentro dos órgãos de segurança dos Estados Unidos. Essa contradição não passou batida pelo setor, levantando o questionamento: de um lado, alertar o mundo que a IA pode sair do controle humano e, ao mesmo tempo, entregar essa IA ao aparato militar americano. A pergunta que fica é: pausa para quem ? Fica a dúvida.
Fonte : Nagib Carrilho / Star FM 105.9.



