Neste sábado (18/04), a Secretaria Municipal de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo promoveu a I Conferência Municipal de Turismo, no auditório da UNEB Campus VI. O evento reuniu especialistas, gestores e a sociedade civil para transformar o potencial cultural e histórico do município em um produto econômico viável e sustentável, traçando a rota estratégica para se consolidar como ‘Terra Mãe do Alto Sertão’.
A conferência não foi apenas uma rodada de palestras, mas um diagnóstico franco sobre os desafios estruturais e financeiros que a cidade enfrenta, contrastando com a riqueza de sua identidade.

O consultor e place branding, Thalles Souza (MZN Consultoria) abriu o debate com uma provocação sobre o pertencimento. Para ele, o turismo começa no olhar do morador : ‘Não pode o visitante perguntar o que tem para fazer e a pessoa dizer: ‘tem umas casas velhas lá’. O destino subestima o potencial de um frentista ou mototaxista para ser o cartão de visitas’, alertou.
Ele ainda destacou que Caetité possui o ‘número 2 do Brasil’ em comunicação estratégica (citando a Foco Multimídia e seu CEO, Diego Silveira), o que deve ser motivo de orgulho e marketing territorial (place branding).

O evento foi dividido em eixos temáticos que expuseram a realidade nua e crua da cidade:
– Planejamento e Mercado (Eixo 1) : Poliana Gomes destacou a urgência de ‘alfabetização turística’ e infraestrutura, citando o Museu do Alto Sertão (MASB) como exemplo de alta demanda com estrutura datada de 2011.
Qualificação e Artesanato (Eixo 2) : Suhiane Rochael Ledo destacou a criação de um espaço físico permanente para a comercialização da produção local foi apontada como a única forma de transformar o artesanato em vetor de renda.
Infraestrutura (Eixo 3) : Francisco Nogueira trouxe um dado realista: dos 100 pontos catalogados, apenas 30 são viáveis para visitação, e metade destes permite apenas a visão externa. O foco agora é buscar parcerias com proprietários particulares para abrir as portas dos casarões.
Produtos Turísticos (Eixo 4) : A turismóloga Ancise, defendeu a análise da ‘Capacidade de Carga’ para evitar a degradação ambiental e sugeriu incentivos fiscais para fomentar a vida noturna, evitando que o lazer local se desloque para cidades vizinhas como Guanambi. Sugerindo a adoção de MVPs (Produtos Mínimos Viáveis) — projetos-piloto de curta duração para testar rotas gastronômicas e artesanais sem grandes riscos financeiros. A criação de uma arena multiuso fora da cidade e incentivos fiscais para a vida noturna (evitando que o público migre para cidades vizinhas como Guanambi), foram propostas para manter a economia local aquecida.
A ‘Mutilação’ Urbana: A especialista em Gestão do Patrimônio Histórico, Diane Stela Neves Alves, denunciou as ‘podas mutilantes’ nos oitizeiros centenários da Rua Barão e o estado de abandono da Praça da Juventude, defendendo o resgate do título de ‘Cidade das Praças’.
O secretário de Cultura, Jair Soares, trouxe o balde de água fria necessário para o pé no chão da gestão. Revelou um bloqueio judicial de quase R$ 1,5 milhão em dívidas herdadas de gestões anteriores, que mantem o município no ‘vermelho’ e impede a emissão de certidões negativas e o acesso a editais : ‘Fica parecendo que está tudo largado, mas estamos negociando dívidas de herança para conseguir investir no básico, como o acrílico dos monumentos’, explicou, citando ainda o vandalismo e furtos de mudas como obstáculos constantes, pedindo a colaboração da população na preservação..
Um dos momentos mais importantes foi a tréplica de Thalles Souza ao vereador Naldinho da Ração. O vereador questionou como o Legislativo poderia ajudar além das emendas parlamentares.
A resposta foi clara: a conferência gerará o Plano Municipal de Turismo, que será enviado à Câmara para se tornar Lei : ‘Uma vez aprovado, o plano deve ser cumprido independentemente da gestão, dando continuidade aos projetos. Ele dá voz ao povo e suporte para captar recursos via Fungetur e emendas parlamentares para cultura e turismo’, explicou o consultor.
O vereador Naldinho da Ração classificou o momento como uma ‘virada de chave’ e comprometeu-se a utilizar a Câmara para transformar o Plano Municipal de Turismo em Lei : ‘O maior patrimônio são as pessoas. Nada resiste à manifestação popular organizada”, afirmou, sinalizando a busca por emendas parlamentares específicas para o setor.’

A conferência encerrou-se com um misto de indignação e esperança. Se por um lado a dívida financeira é um freio, por outro, a união inédita entre comércio, intelectuais e políticos indica que Caetité finalmente entendeu que sua história não é apenas passado, mas um ativo financeiro de futuro. Como resumiu Thalles Souza : ‘O turismo não começa pelo turista; começa pela identidade, pelo território e pelas pessoas’.
A partir de agora, o cronograma prevê de 6 a 12 meses para que as primeiras ações do plano comecem a ser executadas. O monitoramento social será a chave para que este ‘grande projeto ambicioso’ não fique engavetado.
Fonte : acervo próprio.



