Essa última quinta (07/05), ficou marcada como um dos capítulos mais vibrantes da história cultural recente de Caetité. Em uma sessão solene realizada no salão nobre da Câmara de Vereadores (local que abrigou a icônica Escola Normal). A Academia Caetiteense de Letras (ACL) realizou a diplomação de seus novos membros efetivos, eméritos e correspondentes.
A cerimônia, marcada pela renovação e compromisso social, uniu a tradição dos imortais à urgência de uma literatura mais democrática e conectada com as vozes das ruas, dos sertões e das identidades plurais.

A abertura, conduzida pela secretária em exercício, a Professora Sílvia Ysnar, estabeleceu o tom da solenidade ao celebrar o centenário da Escola Normal de Caetité. Em um discurso sensível, ela destacou que a produção cultural e literária é indissociável da educação, reafirmando a função da ACL como guardiã da memória de figuras como Anísio Teixeira.
A mesa diretora, composta pelo Professor Zezito Rodrigues (Presidente), Professora Márcia Haidê (Vice) e Nilton Ferreira (Tesoureiro), acolheu os novos quadros da instituição.
O ponto alto da noite foi a ascensão dos novos membros efetivos às suas respectivas cadeiras. Cada discurso trouxe à tona temas que demonstram a nova face da Academia: plural, combativa e conectada com a sociedade :


João Vitor de Souza Gomes Neto (Cadeira 02): Em uma fala potente, o jovem acadêmico desmistificou o título de ‘imortal’, definindo-o como um ‘chamado à responsabilidade’. Ele provocou a instituição a ser ‘cada vez menos torre e cada vez mais ponte’, defendendo a democratização do acesso à literatura.


Maria Lúcia Porto Silva Nogueira (Cadeira 07): Historiadora e pesquisadora da UNEB, Maria Lúcia trouxe para o silogeu o resgate da voz feminina no sertão. Ela apresentou suas pesquisas sobre escritoras que resistiram à invisibilidade e doou obras que analisam o legado de João Gumes sob a ótica das mulheres.


Telma Rebouças de Almeida (Cadeira 16): Levou a voz do povo ao destacar a pesquisa do Cordel : ‘Trazer a pesquisa de cordel para este silogeu é reafirmar que a nossa cultura é viva e diversa’, pontuou. Sua posse na cadeira que homenageia Valdir Cardoso (patrono da escola onde Telma iniciou seus estudos), foi um dos momentos de maior carga emocional.


Reverendo Lely Almeida de Oliveira (Cadeira 24): Sucessor do saudoso Dom Alberto Rezende. Ele se apresentou como um ‘poeta de alma inquieta’. Trouxe a sensibilidade do poeta que vê na arte como ‘um refúgio e uma ponte’, citando Ferreira Gullar, afirmou que a arte existe porque ‘a vida não basta’, trazendo uma sensibilidade lírica e espiritual à sua posse, unindo também a tradição clássica de nomes como Shakespeare e Fernando Pessoa à inquietude da alma sertaneja.


Gustavo dos Anjos Ribeiro (Cadeira 29): Marcando um momento de forte representatividade, Gustavo definiu sua posse como um ato de resistência de ‘corpas’ e identidades LGBTQIAPN+. Citando Sérgio Vaz e Erika Hilton, ele celebrou a ‘teimosia’ de quem transforma dor em arte e cura.
A ACL também expandiu seus quadros de Acadêmicos Correspondentes, diplomando nomes que levam o nome de Caetité para outros centros, como Sandra Célia Coelho Gomes da Silva, que em sua fala destacou a importância da representatividade das lutas sociais e religiosas. Na categoria de Eméritos, foram homenageados nomes como Dom Roberto Carvalho e Antônio Carlos da Silva, reconhecidos por suas eminentes contribuições à instituição.

O Professor Fábio Silveira (Peréu). Com seu conhecido tom bem-humorado e pragmático, ele deu as boas-vindas aos ‘neófitos’, lembrando que a imortalidade acadêmica reside na ação concreta e na preservação da palavra escrita. Peréu aproveitou para apresentar a nova edição da revista acadêmica, reforçando que a vitalidade da casa depende do empenho e da participação ativa de todos os seus membros.
E o encerramento ficou por conta do Professor Zezito Rodrigues da Silva (presidente em exercício da Academia Caetiteense de Letras – ACL), trazendo as suas considerações finais. Ele definiu a recepção dos novos acadêmicos como um ‘ato de fé’ na palavra, na cultura e na continuidade histórica, e não apenas um rito administrativo, destacando que o nome da cidade (do tupi ‘mata da pedra grande’) reflete a resistência da região contra as ‘intempéries do tempo’ e a ‘invisibilidade’ que muitas vezes atinge o interior do país..
Em seu discurso, ele resgatou a descrição histórica do engenheiro Teodoro Sampaio, que no século XIX definiu Caetité como uma ‘Corte do sertão’ devido à sua riqueza intelectual. O presidente lembrou que a cidade trouxe ao Brasil marcos como a primeira energia elétrica do interior baiano e uma escola normal em um período em que o sertão ainda iniciava sua alfabetização. Utilizando a metáfora do ‘novo lenho’ para descrever os empossados, afirmando que eles são o sangue novo necessário para que a chama da tradição não se apague nem se petrifique.
Reforçando que as 40 cadeiras da Academia são ‘postos de responsabilidade’ e que os membros não estão ali para serem servidos, mas para servir à cidade e honrar seus patronos com trabalho e dedicação : ‘Esta Academia existe para que essa grandeza não se perca. Para que os filhos desta terra saibam de onde vieram e para que os que chegam aqui compreendam em que tradição estão pisando.’
A noite de 7 de maio não foi apenas uma entrega de diplomas; foi a reafirmação de Caetité, como ‘Cidade da Educação’, continua sendo um farol de pensamento crítico e beleza literária no coração do sertão baiano.
A Academia Caetiteense de Letras, aos 25 anos de fundação, permanece viva porque sabe se renovar. Entre o peso da história de seus patronos e a urgência dos novos temas contemporâneos, a ACL reafirma seu papel como farol cultural do sertão, provando que a palavra, quando compartilhada, é o instrumento mais poderoso de permanência e transformação.
Cadeiras e Empossados:
Cadeira 02: João Vitor de Souza Gomes Neto (Patrono: João Gomes)
Cadeira 07: Maria Lúcia Porto Silva Nogueira (Patrono: Durval Castro)
Cadeira 16: Telma Rebouças de Almeida (Patrono: Valdir Cardoso)
Cadeira 24: Lely Almeida de Oliveira (Patrono: Dom Antônio Alberto Guimarães Rezende)
Cadeira 29: Gustavo dos Anjos Ribeiro (Patrono: Manuel Lobo)
Fonte : acervo próprio.



