As terras sagradas do Alto Sertão baiano celebraram, neste sábado (01/08), um marco histórico e espiritual de imensa relevância. A Catedral de Senhora Sant’Ana, em Caetité, reuniu fiéis, seminaristas, familiares e o clero diocesano para uma Celebração Eucarística solene em Ação de Graças pelo aniversário natalício de 95 anos do Monsenhor Adhemar Cardoso Neves.

Com lucidez admirável, memória prodigiosa e o bom humor que lhe é peculiar, Monsenhor Adhemar conduziu parte da homilia inicial compartilhando passagens marcantes de sua caminhada. Nascido no antigo povoado de Bonito (então distrito de Caetité e hoje município de Igaporã), filho mais velho do casal Olímpio e Alcina em uma família de nove irmãos, o sacerdote rememorou os sacrifícios e a profunda devoção que marcaram sua vocação : ‘Eu sou padre, mas não fui eu que escolhi, não. Eu fui escolhido. Eu fui chamado por Deus para ser padre. Ele me chamou e esperou a minha resposta… Se eu não fosse padre, eu seria padre. Eu ia entrar pro seminário pra ser padre.’
Aos 14 anos de idade, em 1945, sua entrada no seminário marcou o início de uma odisseia. Na época, sem estradas pavimentadas ou transporte moderno, o jovem Adhemar fez a viagem de Igaporã a Caetité no lombo de um cavalo. Recebido pelo segundo bispo diocesano, Dom Juvêncio, recordou o choro de saudade na primeira noite longe da família, transformado logo em seguida em uma entrega definitiva ao serviço da Igreja.
Após os primeiros anos de formação na própria casa episcopal de Caetité, onde os professores se revezavam para dar aulas aos seminaristas, Adhemar seguiu em 1947 para o Seminário Central Santa Teresa, na Ladeira da Preguiça, em Salvador, onde permaneceu por mais de uma década. No dia 21 de julho de 1957, foi ordenado sacerdote pelas mãos de Dom José III de Souza.
Sua primeira designação pastoral foi a vasta e desafiadora paróquia de Jacaraci, que na época abrangia os distritos de Mortugaba e Licínio de Almeida, onde os deslocamentos também eram feitos no lombo de animais. Anos mais tarde, em 1962, a pedido de Dom José Pedro Costa, assumiu a coordenação do seminário em Caetité, fixando residência definitiva na terra que escolheu e pela qual é profundamente amado.
Durante a celebração, o testemunho de fé e a modernidade de pensamento de Monsenhor Adhemar foram exaltados. Sacerdote de mente aberta e vanguarda, ele realizou a transição pós-Concílio Vaticano II com naturalidade exemplar. Registros históricos da diocese relembram com carinho o dia em que surpreendeu Dom José Pedro Costa ao apresentar-se já adaptado aos novos tempos e trajes clericalmente civis, em uma época em que o uso da batina ainda era rigorosamente mandatório.
Completando 95 anos de idade, lado a lado na memória afetiva da diocese com seu contemporâneo Monsenhor João Willy, que completaria 96 anos, Monsenhor Adhemar reafirmou que sua missão não tem prazo de validade espiritual : ‘Eu sei que todos nós somos limitados, todos nós temos validade… Mas eu quero mais alguns dias de vida, não para curtir a vida, não viver só por viver. Mas eu quero viver para servir, sobretudo àquelas pessoas mais necessitadas, aquelas pessoas que mais precisam de mim.’

A missa solene coincidiu com o início do mês vocacional e contou com a forte presença da Obra das Vocações e Ministérios (OVM), além da apresentação das três etapas dos seminaristas da Diocese de Caetité (Propedêutico, Discipulado e Configuração) conduzidos pelos padres formadores. Ao final, a assembleia inteira entoou os parabéns ao aniversariante, celebrando o “carvalho e madeira de lei” que continua a ser farol de sabedoria, fé inabalável e amor fraterno para o sertão baiano.
Fonte : acervo próprio.



