Nesta terça (14/04), no salão nobre da Câmara de Vereadores, foi palco de um dos eventos culturais mais significativos do ano: o lançamento do livro ‘Política, Religião e Instituições Escolares no Alto Sertão da Bahia: memória, história e os usos da educação em Caetité (1900 – 1930)’, de autoria da historiadora e doutora Fernanda de Oliveira Matos.
O evento reuniu autoridades, educadores, estudantes e membros da comunidade em um ambiente carregado de simbolismo. O prédio, que já abrigou a Escola Normal e hoje testemunha a vida política da cidade, serviu de moldura perfeita para uma obra que investiga justamente as raízes do título de ‘Centro Intelectual’ que Caetité ostenta há mais de um século.
A obra de Fernanda Oliveira é fruto de uma pesquisa minuciosa que mergulhou em arquivos locais e em acervos distantes, como o da Universidade Mackenzie em São Paulo. O livro revela como a educação, nas primeiras décadas da República, foi o grande campo de disputa entre forças políticas e religiosas.

as professoras Fernanda Oliveira e Antonieta Miguel.
Durante sua fala, a autora destacou a ‘curiosidade incitada’ pela descoberta da presença jesuíta na região : ‘Como é que houve aqui em Caetité um colégio jesuíta e ninguém sabe disso ?’, questionou Fernanda, relembrando sua jornada de pesquisa que a levou a descobrir a vinda de padres exilados de Portugal e a instalação do Instituto São Luiz Gonzaga em 1912, em resposta à chegada dos missionários presbiterianos americanos um ano antes.
Um dos momentos mais emocionantes da noite foi a participação da Professora Antonieta Miguel. Em um depoimento contundente, Antonieta destacou o ‘esquecimento forçado’ que muitas vezes apaga figuras cruciais da nossa história. Ela celebrou o fato de o livro resgatar nomes como o do Professor Francisco Santana, um intelectual negro retinto que educou a elite da Chapada Diamantina no início do século XX : ‘A pesquisa da Fernanda não nos deixa esquecer. Ela é a perpetuação da memória de que Caetité é uma referência na educação’, afirmou Antonieta sob aplausos do público presente.
O livro também lança novas luzes sobre a formação de Anísio Teixeira, revelando seu desempenho como ‘aluno brilhante’ no instituto jesuíta antes de se tornar o maior reformador da educação brasileira. A reabertura da Escola Normal em 1926, conduzida por Anísio, é tratada na obra não apenas como um ato administrativo, mas como uma vitória da identidade caetiteense.

Após os discursos, uma longa fila de autógrafos se formou no salão, evidenciando o desejo da população em se apropriar dessa história. Emocionada, Fernanda Oliveira autografou exemplares e conversou com leitores, reforçando que seu trabalho busca fazer com que nomes como Zelinda Zita e Emiliana Nogueira Pita deixem de ser apenas placas em fachadas para se tornarem personagens vivos na mente da nova geração.

Com o lançamento desta obra, Caetité ganha mais do que um registro acadêmico; ganha um espelho onde pode enxergar sua própria trajetória de resistência e valorização do saber. Em pleno centenário da reabertura da Escola Normal, a cidade prova que continua sendo, acima de tudo, a terra onde o livro é a principal ferramenta de transformação.
Fonte : acervo próprio.



