Nos dias 04/11 e 05/11, a cidade de Caetité sediou este encontro importante para a memória baiana, dedicados a colocar o município e o sertão baiano no centro do debate sobre preservação documental (memória coletiva) e acesso à informação. Foi uma organização em conjunto do Arquivo Público Municipal de Caetité (APMC), Casa Anísio Teixeira, Museu do Alto Sertão da Bahia (MASB), Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB – Vitória da Conquista) e a Universidade do Estado da Bahia (UNEB – Campus VI, Caetité).
Alinhado as diretrizes do Arquivo Nacional, o evento teve a missão de fazer um chamamento a sociedade, reforçando a visão de que os arquivos municipais são vitais na salvaguarda da memória coletiva e atuam como um direito fundamental à informação, buscando aproximar o público desses espaços e, assim, contribuir para o acesso a informações de inestimável valor histórico.
Cumprindo o objetivo de conectar os acervos do sertão baiano aos da capital, Salvador, reforçando o papel fundamental dos arquivos municipais.
No primeiro dia (04/11), aconteceu a mesa 01, com o tema ‘Arquivos públicos e privados: interior e capital da Bahia’, realizada no auditório da Casa Anísio Teixeira.
A mesa 01 contou com as seguintes participações :

– Rosana Santos de Souza (Historiadora da Santa Casa de Misericórdia da Bahia)
– Urano de Cerqueira Andrade (Pesquisador Freelancer/Fotógrafo)
– Jacó dos Santos Souza (UNEB Campus V – Santo Antônio de Jesus / Arquivo Municipal de Cachoeira)
Com a mediação de Nivaldo Osvaldo Dutra (UNEB Campus VI – Caetité).
Em que os palestrantes destacaram a importância de se estabelecerem pontes entre os vastos acervos da capital e os, muitas vezes negligenciados, documentos dos municípios do interior, essenciais para a produção de conhecimento científico e cultural regional.
A historiadora Rosana e o professor Jacó, argumentaram sobre a criação de uma rede coesa que interligue os grandes repositórios da capital aos arquivos municipais do interior.
Já o pesquisador/fotógrafo Urano Andrade trouxe os dados das digitalizações que ele fez em diversos arquivos da região. Com o tema ‘Digitalização de Acervos e Produção do Conhecimento’, em que ele trouxe um relatório dos últimos 7 anos (entre 2018 e 2025), sobre a sistematização de dados e o acesso a informação. Em que ele mostrou os documentos dos séculos XVIII ao século XX que foram digitalizados em acervos de cidades como : Caetité, Jacobina, Andaraí, Alagoinhas, além da capital Salvador.
E o mediador Nivaldo Osvaldo Dutra reforçou a importância de democratizar o conhecimento desses acervos, incentivando a pesquisa científica e cultural.

No segundo dia (05/11) teve uma programação mais extensa, que englobou o circuito da memória de Caetité. Em que se englobaram dois locais importantes : Casa Anísio Teixeira e Museu do Alto Sertão da Bahia (MASB).

Pela manhã, aconteceu a visita guiada na Casa Anísio Teixeira, uma instituição de grande simbolismo histórico, em que os participantes tiveram a oportunidade de aprofundar o contato com a história e o legado de Anísio Teixeira, compreendendo a relevância da instituição para a memória educacional e cultural do estado.

Na parte da tarde, aconteceu a visita guiada no Museu do Alto Sertão da Bahia (MASB), com um tour guiado por todo o acervo, conduzido pela historiadora, mestre e doutoranda em arqueologia pelo MAE – Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, Juliana Freitas, que trouxe a valiosa perspectiva da arqueologia e da preservação material para o debate arquivístico.
Se iniciou com uma roda de conversa, em que ela contextualizou o acervo. Ela explicou que os materiais arqueológicos ali abrigados são, em grande parte, resultado de licenciamentos ambientais de grandes empreendimentos, e que eles contam a história de longa duração da ocupação humana não só de Caetité, mas de toda a região, incluindo Guanambi, Pindaí e Urandi.

E na sequência, Juliana compartilhou ‘histórias particulares’ com as peças, revelando sua conexão com o momento da coleta ou identificação. Ela detalhou artefatos como um tear (contando a história das tecelãs de Guanambi), cerâmicas e louças europeias, ‘Blue Edge’ dos séculos XVIII e XIX, ligando-as a sítios locais como a ‘Fazenda Hospício’ e provando a complexidade social da região.

Logo após, o tour guiado terminou no pátio do museu com uma fala emocionante de encerramento. Juliana Freitas destacou a missão principal do evento: ‘Eu acho que uma coisa potencializa a outra, em que se pode encontrar lastro em materiais arqueológicos que estão aqui no acervo e potencializar ainda mais as pesquisas. Ela concluiu com uma reflexão poderosa sobre o impacto transformador do museu: ‘Foi muito difícil conseguir isso aqui, o meu sonho é que esse lugar mude a vida de muita gente, assim como mudou a minha. Porque mudou completamente a minha.’

Na parte da noite, no auditório da Casa Anísio Teixeira, aconteceu a mesa 02, com o tema ‘Arquivos e centros de pesquisa e memória: o papel das Universidades Públicas na preservação e gestão de documentos históricos’.
A mesa 02 contou com as seguintes participações :

– Moiséis de Oliveira Sampaio (UNEB Campus IV – Jacobina)
– Ricardo Alexandre Santos de Sousa (Coordenador do Centro Regional de Memória e História – CEREMH – UESB Vitória da Conquista)
– Paulo Henrique Duque Santos (Professor Adjunto da UNEB Campus II – Salvador) – Coordenador Acadêmico do Arquivo Público Municipal de Caetité e do Polo Regional Judiciário de Caetité (29 comarcas do interior do estado).
Com a mediação de Maria de Fátima Novaes Pires (Professora Associada – UFBA Salvador) – Coordenadora Acadêmica do Arquivo Público Municipal de Caetité e do Polo Regional Judiciário de Caetité (29 comarcas do interior do estado).

o Prof. Moiséis apresentou o seu trabalho ‘Entre Telescópios e Papéis : O Olhar Sobre Os Arquivos e As Perdas de Memória’.
Em que o professor elencou a preservação documental à necessidade de se manter a memória científica e histórica.
Sua fala teve um forte tom de denúncia, citando a falta de gestão documental no Brasil e o grave vazamento de dados de pacientes com HIV em Feira de Santana (2025) como exemplo do que acontece quando a Lei de Arquivos (Art. 25) é ignorada..

o Prof. Paulo Henrique Duque Santos (UNEB/APMC) apresentou o seu trabalho, intitulado ‘Arquivo Público Municipal de Caetité: A gestão de documentos e acesso a informação’, na experiência de Caetité.
Ele iniciou mostrando a destruição de acervos do século XIX em municípios vizinhos, como Palmas de Monte Alto, onde documentos foram reduzidos a pó e cimento por cupins.
Em paralelo a isso, detalhou o sucesso da parceria com a UNEB na recuperação do APMC, com a aquisição de estantes deslizantes.
As ações concretas que transformaram o APMC, começando pela adequação física (com os armários deslizantes obtidos via BNDES em 2004) e a implementação da digitalização.
A primeira etapa (2015-2016) com o scanner planetário foi de alto custo e rotatividade de pessoal. A solução veio com a fotografia digital (Edital PROAPEX da UNEB em 2017), que permitiu a digitalização eficiente de periódicos, como o Jornal A Penna, a custo mais baixo.
Sendo assim, a evolução da digitalização de alto custo (scanner planetário) para o modelo fotográfico mais eficiente.
A mesa também destacou a expansão desse modelo, citando a parceria com o curso de Direito da UNEB para a digitalização de processos judiciais antigos em Andaraí.
Fonte : acervo próprio.



